Fundamentos: alotropia, fases e o diagrama Fe-C
Grande parte dos tratamentos de endurecimento dos aços baseia-se no controle de uma transformação: a passagem entre ferro CCC (α) e ferro CFC (γ). Outros — alívio de tensões, revenido, nitretação, recristalização, endurecimento por precipitação — atuam por recuperação, precipitação ou difusão, sem re-austenitizar. Dominar o diagrama Fe-C e o comportamento do carbono nessas duas redes é o que separa quem "segue receita" de quem projeta o tratamento.
1.1 Alotropia do ferro e solubilidade do carbono
O ferro puro muda de estrutura cristalina com a temperatura:
| Fase | Rede | Faixa | Solubilidade máx. de C | Comentário |
|---|---|---|---|---|
| Ferrita α | CCC | < 912 °C | 0,022 % a 727 °C | Macia (~80 HB), dúctil; ferromagnética só abaixo de ~770 °C (temperatura de Curie), paramagnética de 770 a 912 °C. Os interstícios CCC são pequenos → quase não dissolve C. |
| Austenita γ | CFC | 912–1394 °C | 2,11 % a 1148 °C | Interstícios octaédricos grandes → dissolve ~100× mais C. É o "estado de partida" de quase todo tratamento. |
| Ferrita δ | CCC | 1394–1538 °C | 0,09 % | Relevante em soldagem e solidificação, não em TT convencional. |
A diferença de solubilidade (0,022 % vs 2,11 %) é o motor de tudo: ao resfriar austenita, o carbono precisa sair de solução. Dar tempo → ele forma cementita (perlita, bainita). Não dar tempo → ele fica aprisionado, distorcendo a rede em uma estrutura TCC supersaturada: a martensita.
Simulador atômico: CFC ⇄ CCC e o destino do carbono (correspondência de Bain)
Abaixo, as células unitárias desenhadas como no livro-texto (arestas ocultas tracejadas): CFC = 8 vértices + 6 centros de face · CCC = 8 vértices + 1 átomo central. Nos dois botões de transformação, acompanhe o destino do carbono — sair por difusão e formar Fe₃C, ou ficar preso e travar a célula em tetragonal:
1.2 Pontos críticos e nomenclatura
- A1 = 727 °C — temperatura eutetoide. Abaixo dela não existe austenita em equilíbrio.
- A3 — fronteira γ / (α+γ) para aços hipoeutetoides (<0,77 %C). Cai de 912 °C (Fe puro) até 727 °C em 0,77 %C.
- Acm — fronteira γ / (γ+Fe₃C) para hipereutetoides (>0,77 %C). Sobe de 727 °C até 1148 °C.
- Prefixos Ac / Ar — chauffage (aquecimento) e refroidissement (resfriamento). Há histerese: Ac3 > A3 > Ar3. Fichas de tratamento reais usam Ac1/Ac3.
1.3 Diagrama Fe-Fe₃C interativo
Passe o mouse (ou toque) sobre as regiões para identificar as fases. As linhas em laranja são as que você usará a vida inteira: A1, A3 e Acm.
1.4 As microestruturas que você precisa reconhecer
| Constituinte | O que é | Dureza típica | Como se forma |
|---|---|---|---|
| Ferrita | Solução sólida de C em Fe-α | ~80–100 HB | Resfriamento lento de hipoeutetoide (pró-eutetoide) ou recozimento |
| Cementita (Fe₃C) | Carboneto de ferro, 6,67 %C, ortorrômbico | ~800 HV | Precipitação; dura e frágil — em rede contínua é desastrosa para tenacidade |
| Perlita | Lamelas alternadas α + Fe₃C (~88/12) | 200–300 HB | Difusão a T alta (nariz da TTT ~550–650 °C). Quanto mais fina, mais dura |
| Bainita superior | Ripas de ferrita com carbonetos entre as ripas | ~30–45 HRC | Transformação isotérmica ~350–550 °C |
| Bainita inferior | Ferrita acicular com carbonetos dentro das placas | ~45–55 HRC | ~Ms a 350 °C; excelente combinação dureza × tenacidade (austêmpera) |
| Martensita | Solução TCC supersaturada em C, adifusional | até ~65 HRC | Resfriamento mais rápido que a velocidade crítica; cresce à velocidade do som no metal |
| Austenita retida | γ que não transformou (Mf abaixo da T ambiente) | ~150–300 HV | Aços alto C / alta liga; instável dimensionalmente — ver Módulo 4 |
1.5 Atlas visual: como cada microestrutura se organiza
O que muda de uma para outra não é "o material" — é como o carbono está arranjado e quão fino é o arranjo. Toda propriedade mecânica sai daqui. Toque em cada campo para ler o que ele explica.
Dureza vem de obstáculos ao movimento de discordâncias. Cada microestrutura oferece um tipo: lamelas (perlita — quanto mais próximas, melhor), partículas finas (bainita, martensita revenida, aços com dureza secundária), rede distorcida + carbono intersticial (martensita), contornos de grão (Hall-Petch: σ ∝ 1/√d — por isso grão fino melhora resistência e tenacidade ao mesmo tempo, algo raríssimo em metalurgia). O tratamento térmico é, literalmente, engenharia de obstáculos.
A dureza máxima da martensita depende quase só do carbono: 0,2 %C → ~45 HRC · 0,4 %C → ~57 HRC · 0,6 %C → ~64 HRC · >0,8 %C → satura em ~65–66 HRC. Elementos de liga (Cr, Mo, Ni, Mn) não aumentam essa dureza máxima — eles aumentam a temperabilidade, isto é, a capacidade de atingir martensita em seções maiores e com resfriamentos mais brandos. Confundir dureza com temperabilidade é o erro conceitual nº 1 da área.
1.6 Martensita em detalhe: Ms, Mf e a equação de Andrews
A transformação martensítica é atérmica: a fração transformada depende de quanto se desce abaixo de Ms, não do tempo. Ms cai com C e elementos de liga (Andrews, 1965, válida para C < 0,6 %):
Ms (°C) = 539 − 423·%C − 30,4·%Mn − 17,7·%Ni − 12,1·%Cr − 7,5·%Mo
Calculadora de Ms (Andrews) CÁLCULO DIDÁTICO
Regra prática (aproximação grosseira — Mf real depende de composição, estabilização e histórico térmico; para projeto, use dilatometria): Mf ≈ Ms − 215 °C. Se Mf cair abaixo da temperatura do meio de têmpera, sobra austenita retida — por isso aços com >0,5 %C + liga quase sempre retêm γ e podem exigir tratamento subzero ou revenidos múltiplos.
1.7 Tamanho de grão austenítico
O grão γ formado na austenitização é herdado por tudo que vem depois: martensita grosseira vem de grão γ grosseiro. Medido por ASTM E112 (número G: quanto maior, mais fino; G8 já é fino, G5 é grosseiro). Superaquecer ou manter tempo excessivo na austenitização cresce o grão e derruba tenacidade e resistência à fadiga. Al, Nb, V e Ti formam precipitados (AlN, NbC, VC) que ancoram contornos e seguram o crescimento — é por isso que aços "acalmados ao alumínio" e microligados mantêm grão fino mesmo em cementação a 930 °C.
Cinética: curvas TTT/CCT e temperabilidade
O diagrama Fe-C diz o que é estável; as curvas TTT/CCT dizem quanto tempo cada transformação leva. É aqui que se decide, na prática, se uma peça vira perlita, bainita ou martensita — e se o meio de têmpera escolhido dá conta da seção da peça.
2.1 TTT × CCT — não confunda
- TTT (isotérmico): austenitiza, resfria instantaneamente até uma temperatura e mantém. Mede início/fim da transformação naquela temperatura. Base conceitual da austêmpera e martêmpera.
- CCT (resfriamento contínuo): mede transformações durante resfriamento contínuo — é o que acontece na têmpera real. As curvas CCT ficam deslocadas para baixo e para a direita em relação à TTT do mesmo aço. Para dimensionar têmpera industrial, use CCT.
O ponto mais à esquerda da curva é o nariz (~500–600 °C nos aços C-Mn). Para obter 100 % martensita é preciso "passar pelo nariz" sem tocá-lo — essa é a velocidade crítica de têmpera. Elementos de liga empurram o nariz para a direita: segundos viram minutos, e um aço passa a temperar em óleo, ou até ao ar.
2.2 Simulador didático de transformações — curvas esquemáticas CÁLCULO DIDÁTICO
Escolha o aço (as curvas TTT se reposicionam com a liga — repare no nariz correndo para a direita), o tratamento e o grão. Arraste o tempo ou aperte Reproduzir: a vista ao microscópio mostra os grãos transformando naquele instante, e as frações respondem à curva daquele aço. As trajetórias são esquemáticas, da ordem do meio-raio de uma barra Ø25 mm; não há cálculo de transferência de calor, geometria ou agitação. Ferramenta para entender tendências — para definir ciclo real, use a curva CCT/Jominy da corrida e os dados do fornecedor.
Troque diâmetro e posição a qualquer momento — o instante do ciclo é mantido para comparação. Repare: a curva da superfície quase não muda com o Ø (quem manda ali é o meio de têmpera); é o meio-raio e sobretudo o núcleo que desaceleram com a seção. Por isso barras grossas endurecem na casca e perdem o núcleo — temperabilidade é sempre relativa à seção.
2.3 Temperabilidade: Jominy, Grossmann e severidade H
Temperabilidade é a profundidade até a qual um aço endurece — normalmente definida como a distância onde se obtém 50 % martensita. Dois formalismos clássicos:
- Ensaio Jominy (ASTM A255 / ISO 642): corpo de prova Ø25×100 mm austenitizado e resfriado por jato d'água numa extremidade. Mede-se dureza ao longo do comprimento → curva HRC × distância J (ex.:
J = 45 HRC @ 10 mm). Aços "H" (4140H, 8620H) têm banda de temperabilidade garantida por norma. - Grossmann: diâmetro crítico ideal
Dᵢ= maior diâmetro que forma 50 % martensita no centro sob têmpera "infinita".Dᵢ = D_base(%C, grão) × f_Mn × f_Cr × f_Mo × …— fatores multiplicativos por elemento. Mn, Mo e Cr têm fatores altos; por isso pequenas adições rendem muito.
| Meio de têmpera | Severidade H (sem agitação) | H (agitação forte) |
|---|---|---|
| Salmoura (NaCl ~10 %) | 2,0 | até 5 |
| Água | 0,9–1,0 | 1,5–2,0 |
| Polímero PAG (conc. controla) | 0,4–1,1 | — |
| Óleo rápido (acelerado) | 0,4–0,5 | 0,8–1,1 |
| Óleo convencional | 0,25–0,30 | 0,4–0,6 |
| Sal fundido (martêmpera) | ~0,3–0,5 | — |
| Ar calmo | 0,02 | 0,05 (forçado) |
10–30 ppm de B segregam nos contornos de grão γ e retardam a nucleação de ferrita, multiplicando a temperabilidade — desde que o B esteja protegido do N (por Ti). É a base dos aços 10B22, 15B30 usados em parafusos e implementos. Nenhum outro elemento entrega tanto com tão pouco.
2.4 Quem empurra a curva para a direita
| Elemento | Efeito na TTT/CCT | Observação |
|---|---|---|
| Mn, Ni | Retardam ferrita/perlita (γ-gênicos) | Ni também baixa a T de transição dúctil-frágil |
| Cr, Mo | Retardam fortemente e separam as curvas de perlita e bainita ("baía") | Origem dos diagramas com duas "barrigas" dos aços ligados |
| B | Retarda ferrita em ppm | Só em aços acalmados/protegidos com Ti |
| Co | Acelera (desloca à esquerda) | Exceção clássica de prova |
| C | Aumenta temperabilidade e baixa Ms | Acima de ~0,6 % aumenta risco de trinca e γ retida |
Recozimentos, normalização e alívio de tensões
"Recozer" não é um tratamento — é uma família de tratamentos com objetivos distintos: amolecer para usinar, regenerar estrutura bruta de fusão/forjamento, esferoidizar para conformar, recristalizar após encruamento ou apenas aliviar tensões sem tocar na microestrutura. Especificar o recozimento errado custa horas de forno e propriedades.
3.1 Mapa da família
| Tratamento | Temperatura | Resfriamento | Microestrutura / objetivo |
|---|---|---|---|
| Recozimento pleno | Ac3 + 30–50 °C (hipo) Ac1 + 50 °C (hiper) | Dentro do forno (≤ ~30 °C/h até ~600 °C) | Perlita grossa + ferrita; dureza mínima, máxima ductilidade. Lento e caro. |
| Recozimento isotérmico | Austenitiza e transforma a ~600–680 °C | Patamar isotérmico, depois ar | Mesmo resultado do pleno em fração do tempo; ideal p/ lotes de forjados (ex.: engrenagens antes da usinagem) |
| Esferoidização | Oscilando em torno de A1 (~690–750 °C), 4–24 h | Muito lento | Cementita globular em matriz ferrítica: a estrutura mais macia possível de um aço. Obrigatória p/ conformar ou usinar aços >0,6 %C (rolamento 52100 é fornecido assim) |
| Recozimento subcrítico | 550–700 °C (abaixo de A1) | Ar | Recuperação/recristalização parcial sem re-austenitizar; barato |
| Recristalização | ~0,4·T_fusão; aços: 550–700 °C | Ar | Novos grãos equiaxiais após trabalho a frio; controla textura e grão em chapas |
| Alívio de tensões | 550–650 °C (aço C); 30–90 min/25 mm | Lento até ~300 °C | Sem transformação de fase. Relaxa tensões de soldagem/usinagem/têmpera por fluência local. Base do TTAT/PWHT de vasos (ASME VIII, NR-13) |
| Homogeneização | 1100–1200 °C, horas | — | Dissolve segregação dendrítica de lingotes/fundidos; grão cresce muito → exige normalização posterior |
| Normalização | Ac3 (ou Acm) + 40–60 °C | Ar calmo | Perlita fina + grão refinado e homogêneo; ~10–20 % mais duro que recozido. Regenera forjados e fundidos, prepara estrutura uniforme p/ têmpera posterior |
A diferença é só a taxa de resfriamento (ar × forno), mas o resultado é conceitualmente distinto: a normalização resfria mais rápido, gera perlita mais fina (maior resistência) e, principalmente, refina e uniformiza o grão — por isso é o tratamento de "reset" após forjamento, laminação a quente ou soldagem pesada. Em peças espessas, o centro resfria mais devagar que a superfície: normalização de seções grandes produz propriedades heterogêneas, e é por isso que normas de vasos e forjados limitam propriedades por faixa de espessura.
3.2 Alívio de tensões na prática (o que você especifica em desenho)
- Mecanismo: a tensão residual não pode exceder o limite de escoamento na temperatura do tratamento. A 600 °C o LE do aço C cai para ~1/3 → tensões relaxam por microfluência.
- Parâmetros usuais (aço C-Mn): 590–650 °C, 1 h por polegada de espessura (mín. 1 h), aquecimento/resfriamento ≤ 150–220 °C/h acima de 300–400 °C para não criar novas tensões térmicas.
- Cuidado com aços temperados e revenidos: o alívio deve ficar ≥ 25–50 °C abaixo do último revenido, senão a peça amolece abaixo do especificado.
- Cr-Mo (ex.: 42CrMo4 soldado): atenção à fragilização ao revenido reversível na faixa 450–550 °C (Módulo 4) — atravesse a faixa, não estacione nela.
Têmpera, revenido e os tratamentos isotérmicos
Como regra geral, têmpera sem revenido é uma peça em estado de tensão com alto risco de trincar (exceções existem — algumas condições de fornecimento e sequências específicas —, mas são controladas por procedimento). Este módulo cobre o ciclo completo: austenitização correta, física do resfriamento em líquidos, os quatro estágios do revenido, as duas fragilizações, austenita retida, subzero, martêmpera e austêmpera.
4.1 Austenitização: onde a têmpera é ganha ou perdida
- Hipoeutetoides: Ac3 + 30–50 °C. Abaixo disso sobra ferrita não dissolvida (pontos moles); acima, grão cresce.
- Hipereutetoides e aços-ferramenta: entre Ac1 e Acm (têmpera intercrítica), tipicamente Ac1 + 50–70 °C. Dissolver todos os carbonetos seria um erro: dispararia o C em solução → Ms despenca → austenita retida excessiva + grão grosso. Os carbonetos não dissolvidos ainda ancoram o grão e dão resistência ao desgaste.
- Encharque: regra prática 20–30 min por 25 mm de seção após a peça atingir a temperatura (varia com forno, carga e liga; aços alta liga a vácuo usam patamares de equalização escalonados).
- Atmosfera: ar do forno descarboneta e oxida — para peças acabadas use atmosfera controlada (endogás com potencial C casado ao aço), vácuo ou caixa/pasta protetora. Descarbonetação superficial = dureza baixa na medição e fadiga comprometida.
4.2 Física do resfriamento em líquidos: os 3 estágios
- Camada de vapor (Leidenfrost): filme de vapor isola a peça — resfriamento lento. Vilão dos pontos moles: o filme colapsa antes em cantos e depois em cavidades.
- Ebulição nucleada: bolhas se formam e destacam na superfície — é o estágio de máxima extração de calor (pode passar de 1000 °C/s localmente).
- Convecção: abaixo do ponto de ebulição do meio — resfriamento lento de novo. É aqui que a martensita se forma (abaixo de Ms): convecção lenta = menos distorção.
Agitação, temperatura do banho e aditivos (sais na água, polímero PAG) existem para encurtar o estágio 1 e uniformizar o estágio 2. O óleo de têmpera ideal quebra o filme de vapor rápido, extrai forte no nariz da CCT e resfria devagar na faixa martensítica — exatamente o perfil que a água não tem (água é violenta justamente abaixo de 300 °C, onde mais dói).
4.3 Revenido: os 4 estágios
Martensita como temperada é supersaturada, tensionada e frágil. O revenido troca dureza por tenacidade de forma controlada:
| Estágio | Faixa | O que acontece |
|---|---|---|
| 1º | 80–200 °C | Precipitação de carboneto ε (Fe₂,₄C); martensita perde tetragonalidade. Dureza cai pouco. Ferramentas de corte e cementados revenidos aqui (150–200 °C) |
| 2º | 200–300 °C | Austenita retida se decompõe em bainita/ferrita + cementita (nos aços C; em alta liga só acima de 500 °C) |
| 3º | 250–400 °C | ε → cementita Fe₃C; martensita vira "martensita revenida" (ferrita acicular + carbonetos). Queda franca de dureza |
| 4º | 500–650 °C (aços ligados) | Precipitação de carbonetos de liga finos (Mo₂C, V₄C₃, W₂C, Cr₇C₃) → endurecimento secundário. Base dos aços H13, M2, aços rápidos |
4.4 As duas fragilizações que você precisa evitar
Fragilização da martensita revenida (TME)
250–400 °C, irreversível. Filmes de cementita nos contornos das ripas + segregação de P/S. Regra de ouro: não revenir nessa faixa — ou abaixo de 250 °C, ou acima de 425 °C. Nota terminológica: "fragilidade azul" é expressão usada de forma variável na literatura (classicamente designa o envelhecimento dinâmico ~200–350 °C em aços ferríticos) — não trate os termos como sinônimos.
Fragilização ao revenido (reversível / Krupp)
450–600 °C, reversível. Segregação de P, Sn, Sb, As nos contornos de grão γ prévios durante permanência ou resfriamento lento na faixa. Afeta Cr-Ni e Cr-Mn (4340, 42CrMo4 é parcialmente protegido). Antídotos: Mo 0,15–0,5 %, aços limpos, e resfriar em água/óleo após revenido acima de 600 °C para atravessar a faixa rápido. Diagnóstico: fratura intergranular + queda de energia Charpy; recuperável re-revenindo acima de 600 °C + resfriamento rápido.
4.5 Curva de revenido e o parâmetro de Hollomon-Jaffe
Tempo e temperatura de revenido são intercambiáveis via P = T·(20 + log t) (T em Kelvin, t em horas): 2 h a 600 °C ≈ 4,5 h a 585 °C. Use P para transpor uma curva de catálogo (frequentemente levantada com tempo fixo — confira no catálogo) para o seu ciclo real. Aços ao C têm curva monotônica decrescente; aços com Mo/V/W/Cr mostram o pico de dureza secundária em 500–560 °C — o H13 sobe de ~52 para ~54 HRC antes de cair.
① Revenir imediatamente após a têmpera (peça a 50–80 °C; deixar peça temperada sem revenir de um dia para o outro convida trinca espontânea) — boa prática geral, com exceções apenas por procedimento controlado. ② Aços-ferramenta e cementados de alta liga: duplo ou triplo revenido — o 1º reveste a martensita e desestabiliza a γ retida, que transforma em martensita nova no resfriamento; o 2º revine essa martensita nova. ③ Dureza final é definida pelo revenido, não pela têmpera: temperar visa dureza máxima; revenir ajusta ao especificado.
4.6 Austenita retida e tratamento subzero
- Quando aparece: Mf abaixo da T do banho — aços >0,5 %C, cementados (superfície com ~0,8 %C!), aços-ferramenta alta liga. Cementado típico: 15–30 % γ retida na camada.
- Problemas: dureza 2–5 HRC abaixo do potencial; instabilidade dimensional (γ→α' em serviço = crescimento + tensões — fatal em calibres, rolamentos, moldes de precisão).
- Soluções: subzero convencional (−80 °C, gelo seco/freezer) ou criogênico (−196 °C, N₂ líquido, com taxas lentas), tipicamente entre têmpera e revenido, ou entre 1º e 2º revenidos em alta liga (aços-ferramenta sensíveis a trinca podem usar snap temper — revenido curto de alívio — antes do subzero); ou revenidos múltiplos. Em criogênico profundo de aços-ferramenta há ainda relato de precipitação de carbonetos η finos → +resistência ao desgaste.
4.7 Martêmpera e austêmpera
| Martêmpera (têmpera interrompida) | Austêmpera | |
|---|---|---|
| Ciclo | Resfria em sal fundido/óleo quente logo acima de Ms (180–250 °C), equaliza a temperatura na seção, depois resfria ao ar através de Ms | Resfria até 260–400 °C e mantém até transformação completa em bainita (minutos a horas); sem revenido posterior |
| Microestrutura | Martensita (revenir depois normalmente) | Bainita inferior ou superior, conforme aço e T do patamar (T baixa, ~260–330 °C, favorece a inferior) |
| Vantagem | Toda a seção cruza Ms junta → distorção e risco de trinca mínimos | Tenacidade e ductilidade superiores à martensita revenida de mesma dureza (40–50 HRC); quase sem distorção |
| Limite | Exige temperabilidade suficiente (o sal é meio brando) | Seções finas ou aços de alta temperabilidade; tempo de patamar longo |
| Aplicações | Engrenagens, eixos, matrizes de precisão | Molas, clipes, lâminas, correntes — e ADI (ferro nodular austemperado: 850–1050 MPa com 10 % alongamento) |
4.8 Cores de revenido (guia visual de oficina)
Óxidos superficiais de espessura crescente produzem cores de interferência — termômetro visual clássico (aço C, ar, tempos curtos):
~220 °C
~240 °C
~260 °C
~280 °C
~300 °C
~330 °C
~400 °C
Serve como indicativo — nunca como controle de processo. Em Cr alto, as cores deslocam para cima.
Tratamentos termoquímicos
Termoquímicos alteram a composição química da superfície por difusão (C, N, B…), criando o par ideal: casca dura e resistente ao desgaste + núcleo tenaz — e, de quebra, tensões residuais compressivas na superfície, que multiplicam a vida em fadiga. A escolha entre eles é uma decisão de temperatura (distorção!), profundidade, dureza e custo.
5.1 Cementação (carbonetação)
- Princípio: difusão de C em austenita a 880–950 °C em aços baixo C (0,10–0,25 %) de famílias distintas: Ni-Cr-Mo (8620, 18CrNiMo7-6) e Mn-Cr (16MnCr5, 20MnCr5) — não são equivalentes diretos entre si. Superfície atinge 0,7–1,0 %C; têmpera + revenido baixo (150–200 °C) obrigatórios em seguida. Superfície: 58–62 HRC; núcleo: 30–45 HRC.
- Gasosa (padrão industrial): atmosfera endotérmica + gás natural/propano; o potencial de carbono (0,8–1,1 %) é controlado por sonda de oxigênio + analisador de CO. Ciclo boost-diffuse: satura a superfície acima do alvo e depois difunde, achatando o gradiente.
- Baixa pressão (LPC, a vácuo): pulsos de acetileno a ~900–1000 °C + têmpera em gás alta pressão (N₂/He 10–20 bar). Sem oxidação intergranular, peça limpa, menor distorção — padrão crescente em engrenagens de transmissão.
- Sólida (caixa) e líquida (banho de cianeto): legadas; a líquida em extinção por questões ambientais.
- Profundidade de camada (CHD, ISO 18203 / DIN EN ISO 2639): distância da superfície até 550 HV1. Cresce com √t (lei parabólica).
Estimativa didática de profundidade de difusão na cementação (Harris) CÁLCULO DIDÁTICO
d ≈ f·√t — fatores clássicos p/ aço-carbono/baixa liga em potencial C típico. Não equivale automaticamente a CHD 550 HV1: o critério de camada depende do aço, do potencial de C, do ciclo boost/diffuse, da têmpera e da dureza do núcleo.
5.2 Nitretação
- Princípio: difusão de N a 500–580 °C — abaixo de A1, sem têmpera posterior e sem transformação de fase → distorção mínima. É o tratamento de acabamento por excelência: a peça entra pronta (temperada e revenida acima da T de nitretação) e sai pronta.
- Estrutura da camada: ① camada branca/composta (5–25 µm de nitretos ε-Fe₂₋₃N e/ou γ'-Fe₄N) — dureza e resistência à corrosão/scuffing, mas frágil se espessa ou bifásica; ② zona de difusão (0,1–0,8 mm) — N em solução + nitretos finos de liga, onde mora a dureza de suporte e a compressão residual.
- Aços adequados: precisam de formadores de nitretos — Cr, Mo, V, Al. Clássicos: 31CrMoV9, 34CrAlNi7 (Nitralloy, até 1100–1200 HV), 42CrMo4 (~600–700 HV), H13 e 1.2714/56NiCrMoV7 (matrizes de forjamento: nitretação eleva vida por desgaste/fadiga térmica). Aço-carbono puro nitretado rende só ~350–450 HV.
- Processos: gasosa (NH₃, 20–100 h, controle por potencial de nitretação K_N, DIN 30902/AMS 2759-10); plasma/iônica (400–560 °C, controle fino da camada branca — inclusive suprimi-la —, ótima p/ furos e geometrias, permite mascaramento mecânico); banho de sal.
- NHD (profundidade de nitretação, DIN 50190-3): até dureza = núcleo + 50 HV.
5.3 Carbonitretação × Nitrocarbonetação — nomes parecidos, mundos diferentes
Carbonitretação (austenítica)
820–900 °C, atmosfera de cementação + NH₃ (C e N difundem na austenita), seguida de têmpera. Camadas finas (0,1–0,75 mm) com temperabilidade aumentada pelo N → tempera em óleo até aço 1010/1020 barato. Perfeita para peças pequenas estampadas, pinos, engrenagens leves produzidas em massa.
Nitrocarbonetação ferrítica (FNC / Tenifer / QPQ)
560–580 °C, curtíssima (1–4 h), gás ou banho de sal: forma rapidamente camada ε compacta (10–25 µm) + difusão rasa. Sem têmpera. Resistência a desgaste adesivo, engripamento e corrosão. Variante QPQ (quench-polish-quench com pós-oxidação): superfície preta, resistência à corrosão comparável a cromo duro — hastes hidráulicas, virabrequins, armas, válvulas industriais.
5.4 Boretação e outros
- Boretação: 850–1000 °C em pó/pasta (B₄C + ativadores). Camada de boretos FeB/Fe₂B, morfologia dente-de-serra, 1400–2000 HV — acima de qualquer nitretação. 20–300 µm. Risco: camada bifásica FeB+Fe₂B trinca por diferença de expansão — especifique monofásica Fe₂B. Uso: desgaste abrasivo severo (roscas transportadoras, bicos, matrizes de extrusão).
- Outros de nicho: vanadização/TD-process (VC, ~3000 HV, ferramentas de estampagem), cromização, aluminização (resistência à oxidação a quente), sherardização (Zn).
5.5 Tabela comparativa — a decisão de engenharia
| Processo | T (°C) | Dureza sup. | Profundidade típica | Distorção | Têmpera depois? | Use quando… |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Cementação | 880–950 | 58–62 HRC | 0,3–3 mm | Alta | Sim | Cargas de contato altas (engrenagens, rolamentos) — camada profunda de suporte |
| Carbonitretação | 820–900 | 58–62 HRC | 0,1–0,75 mm | Média | Sim | Peças pequenas, aço barato, produção em massa |
| Nitretação gás/plasma | 500–580 | 600–1200 HV | 0,1–0,8 mm | Mínima | Não | Precisão dimensional, fadiga, matrizes a quente, peças já acabadas |
| FNC / QPQ | 560–580 | ~500–900 HV (camada ε) | 10–25 µm + difusão | Mínima | Não | Desgaste adesivo + corrosão, ciclos curtos e baratos |
| Boretação | 850–1000 | 1400–2000 HV | 20–300 µm | Alta | Opcional (núcleo) | Abrasão severa que nitretação não segura |
Camada dura sobre núcleo mole demais é como asfalto fino sobre solo fofo: colapsa por deformação subsuperficial (efeito casca de ovo). Em contato hertziano, a tensão de cisalhamento máxima ocorre abaixo da superfície (~0,3–0,5·semilargura de contato) — a camada precisa ser mais profunda que esse pico, e o núcleo precisa de dureza mínima (engrenagens cementadas: núcleo 30–43 HRC). É por isso que CHD de engrenagem escala com o módulo do dente (regra usual: CHD ≈ 0,15–0,2·mₙ).
Endurecimento superficial por aquecimento localizado
Indução, chama, laser e feixe de elétrons austenitizam apenas a casca da peça e temperam em seguida — o próprio núcleo frio pode fazer a têmpera (autotêmpera). Exigem aço com carbono suficiente para endurecer (0,35–0,55 %C): 1045, 4140, 4340, ferros fundidos perlíticos.
6.1 Têmpera por indução
- Física: correntes de Foucault + histerese aquecem a superfície em segundos. O efeito pelicular concentra a corrente numa profundidade δ ∝ 1/√f — a frequência é o seu controle de profundidade.
- Regras de seleção: 450 kHz–1 MHz → 0,25–1 mm (fios, pequenos eixos) · 10–50 kHz → 1–3 mm (eixos, pinos) · 1–10 kHz → 3–8 mm (grandes eixos, cilindros de laminação) · 50–60 Hz (rede) → 8–15 mm.
- Modos: single-shot (bobina envolve, aquece tudo de uma vez) e scanning (bobina + ducha varrem a peça — eixos longos, guias). Têmpera por ducha de polímero integrada.
- Detalhes de especialista: a austenitização é tão rápida (taxas de 100–1000 °C/s) que as temperaturas Ac3 efetivas sobem 50–100 °C acima do equilíbrio — parâmetros de forno não se transferem para indução. A microestrutura de partida importa: estrutura temperada-e-revenida ou normalizada fina responde muito melhor (austenitização homogênea em segundos) do que ferrita+perlita grossa ou esferoidizada. Sempre revenir após (170–200 °C, ou revenido por indução). Zona de transição na borda do padrão endurecido fica em tração residual — não a posicione em concentradores (raios, furos, fundos de canal de chaveta!).
6.2 Chama, laser e feixe de elétrons
| Processo | Profundidade | Características |
|---|---|---|
| Chama (oxiacetileno + ducha) | 1–6 mm | Barato, flexível, peças enormes (engrenagens de moenda, rodas), mas controle inferior — depende do operador/dispositivo |
| Laser | 0,3–1,5 mm | Faixa estreita e precisa, autotêmpera por condução (sem ducha), distorção quase nula, integra em célula robotizada; camadas finas — guias, cames, gumes |
| Feixe de elétrons | 0,1–1 mm | Como laser, mas em vácuo; nichos de altíssima precisão |
Tanto os termoquímicos quanto indução/laser deixam a casca em compressão residual (a expansão da martensita é contida pelo núcleo). Trincas de fadiga nucleiam na superfície sob tração — compressão residual funciona como "pré-carga negativa": o limite de fadiga de um eixo pode subir substancialmente com têmpera por indução bem posicionada (tendência qualitativa — o ganho real depende do aço, da profundidade do padrão e do ensaio). Mesma lógica do shot peening, porém mais profunda.
Aços, elementos de liga e casos reais
Ler uma composição química e prever o comportamento no tratamento térmico é a marca do especialista. Cada elemento tem dois ou três "empregos" — e efeitos colaterais.
7.1 O papel de cada elemento
| Elem. | Efeitos principais no TT | Efeitos colaterais / notas |
|---|---|---|
| C | Define dureza máxima da martensita; ↑ temperabilidade; ↓ Ms | >0,6 %: risco de trinca de têmpera e γ retida; soldabilidade despenca (CE) |
| Mn | ↑↑ temperabilidade (barato); ↓ Ms; liga o S como MnS | >1,8 % favorece γ retida e segregação em bandas |
| Cr | ↑ temperabilidade; forma carbonetos (Cr₇C₃, Cr₂₃C₆) → desgaste; nitreta bem | ≥ ~11 % em solução → inox; susceptível à fragilização ao revenido sem Mo |
| Mo | ↑↑ temperabilidade; dureza secundária; resistência à fluência; anti-fragilização ao revenido | Caro; 0,15–0,5 % já resolve a fragilização |
| Ni | ↑ temperabilidade; tenacidade a baixa T (baixa a TDF); não forma carbonetos | Estabiliza γ (↑ retida); caro |
| V | Refina grão (V(C,N) ancora contornos); carboneto VC duríssimo; dureza secundária | Exige austenitização mais alta p/ dissolver |
| W | Carbonetos estáveis, dureza a quente (aços rápidos, a quente) | Denso e caro; parcialmente substituído por Mo (M2 vs T1) |
| Si | Desoxidante; ↑ resistência ao amolecimento no revenido; molas (9260) | >2 % dificulta cementação; favorece descarbonetação |
| Al | Acalma o aço; AlN refina grão; elemento-chave de nitretação (Nitralloy) | Inclusões de alumina (usinabilidade/fadiga de contato) |
| B | ↑↑↑ temperabilidade com 10–30 ppm | Precisa Ti p/ proteger do N; efeito some acima de ~0,4 %C |
| Nb, Ti | Microligantes: refino de grão, endurecimento por precipitação (ARBL) | TiC/TiN abrasivos p/ ferramenta |
7.2 Fichas de tratamento de aços que você encontra todo dia
| Aço | Têmpera | Revenido / resultado | Notas de especialista |
|---|---|---|---|
| 1045 | 820–850 °C, água/polímero | 550–650 °C → 20–28 HRC (beneficiado) | Baixa temperabilidade: só endureça por indução ou em seções finas; água = risco de trinca em cantos |
| 4140 (similar: 42CrMo4) | 840–860 °C, óleo | 540–650 °C → 28–36 HRC | O beneficiado universal. Evite estacionar em 450–550 °C (fragilização); nitreta muito bem (~600 HV) |
| 4340 (similar: 34CrNiMo6) | 830–850 °C, óleo | 550–650 °C → 30–40 HRC | Alta temperabilidade (seções grandes); tenaz; clássico de eixos pesados e componentes de laminação |
| 8620 (≈ EN 20NiCrMo2-2 / 1.6523) | Cementa 900–930 °C; tempera 820–840 °C óleo | 160–200 °C → 58–62 HRC sup., núcleo 30–43 | Engrenagem padrão; controle de γ retida na camada; duplo revenido em módulos grandes |
| 52100 (similar: 100Cr6) | 830–860 °C, óleo (de esferoidizado) | 150–180 °C → 60–64 HRC | Rolamentos; austenitização intercrítica (carbonetos residuais); subzero p/ estabilidade dimensional |
| H13 / 1.2344 | 1010–1030 °C, gás/óleo (vácuo) | 2–3× revenido 550–620 °C → 44–52 HRC | Dureza secundária; revenir sempre acima do pico p/ estabilidade térmica em serviço; nitretável |
| 1.2714 / 56NiCrMoV7 | 840–870 °C, óleo/ar | 2× revenido 450–600 °C → 37–44 HRC (~340–420 HB) | Matrizes de forjamento a quente: prioridade é tenacidade + resistência ao revenimento em serviço; nitretação/soldas de recuperação com pré-aquecimento 350–450 °C e revenido pós-solda |
| M2 / HS6-5-2 | 1180–1220 °C, banho/vácuo | 3× 540–560 °C → 63–65 HRC | Aço rápido: dureza secundária plena exige triplo revenido; γ retida >20 % após têmpera |
7.3 Ferros fundidos: o caso ADI
Ferro nodular austemperado (ADI, ASTM A897/A897M — classes e propriedades variam por edição; consulte a vigente): austenitiza 850–950 °C, austêmpera 250–400 °C → ausferrita (ferrita acicular + γ estabilizada em C). Ordem de grandeza do grau básico: ~850 MPa / 10 % along. — resistência de aço forjado com 10 % menos densidade e amortecimento de vibração superior. Usado em engrenagens, suspensões, mancais e componentes de moagem. Atenção: a γ estabilizada transforma sob usinagem pesada → usinar antes de austemperar.
Prática industrial: defeitos, controle e ferramentas rápidas
A maioria dos problemas de tratamento térmico não vem da metalurgia — vem de projeto que ignora a têmpera, carga mal montada, pirometria descalibrada e especificação ambígua. Este módulo é o seu checklist.
8.1 Distorção e trincas de têmpera
- Duas fontes de tensão: ① térmica (gradiente superfície-núcleo) e ② de transformação (γ→α' expande ~4 % em volume). Quando a superfície já é martensita rígida e o núcleo transforma depois, o núcleo empurra a casca → tração superficial → trinca tipicamente intergranular seguindo o grão γ prévio (mas pode ser transgranular ou mista, conforme aço, tensões e condição metalúrgica), partindo de cantos vivos, furos, marcas de estampo, rebarbas e descarbonetação.
- Regras de projeto anti-trinca: raios generosos, evitar mudanças bruscas de seção, avaliar tampões em furos roscados (protegem a rosca, mas podem reter vapor e alterar a troca térmica local — decidir caso a caso), posicionar canais de chaveta fora do padrão de indução, seções balanceadas.
- Regras de processo: meio mais brando que atenda a dureza (óleo/polímero antes de água), agitação uniforme, orientação de imersão (eixos na vertical!), martêmpera para geometrias críticas, revenir imediatamente.
- Diagnóstico rápido: trinca antes do revenido, arestas oxidadas dentro da trinca → trincou na têmpera; trinca com bordas limpas após retífica → possível trinca de retífica (queima) ou de revenido insuficiente.
8.2 Defeitos superficiais de forno
| Defeito | Causa | Prevenção / detecção |
|---|---|---|
| Descarbonetação | Atmosfera oxidante (ar, umidade) durante austenitização | Atmosfera com potencial C ≈ %C do aço, vácuo, ou sobremetal p/ remoção; detectar por microdureza em corte ou lixamento escalonado + dureza |
| Oxidação intergranular (IGO) | Cementação gasosa: O da atmosfera oxida Si/Mn/Cr nos contornos, 10–25 µm | LPC (vácuo) elimina; ou prever remoção por retífica; crítica em fadiga de engrenagens |
| Pontos moles | Filme de vapor persistente, carepa, contato entre peças na carga | Agitação, salmoura/aditivos, montagem de carga espaçada |
| Excesso de camada branca / camada bifásica | Potencial de nitretação alto demais | Controle K_N; plasma p/ suprimir; especificar espessura máx. em desenho (ex.: ≤ 15 µm, monofásica) |
8.3 Pirometria e qualidade (o que a auditoria pede)
- AMS 2750 / CQI-9: classes de forno por uniformidade — TUS (Temperature Uniformity Survey), Classe 1 a 6: ±5 a ±50 °F (≈ ±3, ±6, ±8, ±10, ±14 e ±28 °C), conforme a edição vigente da norma; SAT (System Accuracy Test), calibração e rastreabilidade de termopares.
- Especificação em desenho, o mínimo: tratamento + norma de referência, dureza com método e carga (ex.: 58–62 HRC; 550 HV1), profundidade com critério (CHD 550 HV1 = 0,8–1,2 mm; NHD núcleo+50 HV), local de medição, restrições de camada branca/descarbonetação, e sequência com usinagem (pré/pós).
- Ensaios de verificação: dureza superficial e de núcleo, perfil de microdureza (ISO 2639/18203), metalografia (camada, γ retida, IGO), Jominy p/ recebimento de corrida, partículas magnéticas pós-têmpera em peças críticas.
8.4 Conversor de dureza (aprox. ASTM E140, aços) CÁLCULO DIDÁTICO
Interpolação sobre a tabela E140 para aços não-austeníticos. Conversões são sempre aproximadas — para laudo, meça na escala especificada.
8.5 Fluxo de decisão — qual tratamento especificar?
- Precisa endurecer o volume todo? → têmpera + revenido (beneficiamento). Verifique temperabilidade × seção (Jominy/CCT) antes de escolher o aço, não depois.
- Só a superfície, camada profunda (>0,5 mm) e contato hertziano alto? → cementação (aço baixo C) ou indução (aço médio C, geometria simples e volume de produção).
- Só a superfície, peça acabada, distorção inaceitável? → nitretação (aço com Cr/Mo/V/Al, já beneficiado).
- Desgaste adesivo + corrosão, custo baixo, camada fina serve? → FNC/QPQ.
- Abrasão extrema? → boretação (ou revestimento: PVD, aspersão, solda dura — fora do escopo térmico).
- Só remover tensões (soldou, usinou pesado)? → alívio de tensões; respeite o teto do último revenido.
- Amolecer para usinar/conformar? → recozimento isotérmico (produtividade) ou esferoidização (alto C).