Atlas de Tratamentos Térmicos & Termoquímicos

V18 · mobile
Módulo 1 · A base de tudo

Fundamentos: alotropia, fases e o diagrama Fe-C

Grande parte dos tratamentos de endurecimento dos aços baseia-se no controle de uma transformação: a passagem entre ferro CCC (α) e ferro CFC (γ). Outros — alívio de tensões, revenido, nitretação, recristalização, endurecimento por precipitação — atuam por recuperação, precipitação ou difusão, sem re-austenitizar. Dominar o diagrama Fe-C e o comportamento do carbono nessas duas redes é o que separa quem "segue receita" de quem projeta o tratamento.

1.1 Alotropia do ferro e solubilidade do carbono

O ferro puro muda de estrutura cristalina com a temperatura:

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FaseRedeFaixaSolubilidade máx. de CComentário
Ferrita αCCC< 912 °C0,022 % a 727 °CMacia (~80 HB), dúctil; ferromagnética só abaixo de ~770 °C (temperatura de Curie), paramagnética de 770 a 912 °C. Os interstícios CCC são pequenos → quase não dissolve C.
Austenita γCFC912–1394 °C2,11 % a 1148 °CInterstícios octaédricos grandes → dissolve ~100× mais C. É o "estado de partida" de quase todo tratamento.
Ferrita δCCC1394–1538 °C0,09 %Relevante em soldagem e solidificação, não em TT convencional.
Insight central

A diferença de solubilidade (0,022 % vs 2,11 %) é o motor de tudo: ao resfriar austenita, o carbono precisa sair de solução. Dar tempo → ele forma cementita (perlita, bainita). Não dar tempo → ele fica aprisionado, distorcendo a rede em uma estrutura TCC supersaturada: a martensita.

Simulador atômico: CFC ⇄ CCC e o destino do carbono (correspondência de Bain)

Abaixo, as células unitárias desenhadas como no livro-texto (arestas ocultas tracejadas): CFC = 8 vértices + 6 centros de face · CCC = 8 vértices + 1 átomo central. Nos dois botões de transformação, acompanhe o destino do carbono — sair por difusão e formar Fe₃C, ou ficar preso e travar a célula em tetragonal:

Célula unitária · Bainc/a = 1,41
Azul = Fe · vermelho = C · linha cheia = aresta visível · tracejada = oculta · vibração térmica contínua

1.2 Pontos críticos e nomenclatura

1.3 Diagrama Fe-Fe₃C interativo

Passe o mouse (ou toque) sobre as regiões para identificar as fases. As linhas em laranja são as que você usará a vida inteira: A1, A3 e Acm.

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400600800 1000120014001600 Temperatura (°C) 01234566,67 Carbono (% em massa) A1 · 727 °C A3 Acm Eutético 4,3 %C · 1148 °C (ledeburita) Eutetoide 0,77 %C γ α L α + Fe₃C (perlita + fase pró-eutetoide) γ + Fe₃C
%C 0,45
T 850 °C
Austenita γ850 °C
Microestrutura de equilíbrio no ponto do alvo · esquemática
Toque numa região do diagrama para identificá-la…
CÁLCULO DIDÁTICO Fig. 1 — Diagrama Fe-Fe₃C metaestável. Os controles movem o alvo laranja e o microscópio mostra a microestrutura de equilíbrio, com frações pela regra da alavanca. Experimente descer com 0,45 %C do líquido até a ambiente: é a história completa de uma solidificação lenta.

1.4 As microestruturas que você precisa reconhecer

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ConstituinteO que éDureza típicaComo se forma
FerritaSolução sólida de C em Fe-α~80–100 HBResfriamento lento de hipoeutetoide (pró-eutetoide) ou recozimento
Cementita (Fe₃C)Carboneto de ferro, 6,67 %C, ortorrômbico~800 HVPrecipitação; dura e frágil — em rede contínua é desastrosa para tenacidade
PerlitaLamelas alternadas α + Fe₃C (~88/12)200–300 HBDifusão a T alta (nariz da TTT ~550–650 °C). Quanto mais fina, mais dura
Bainita superiorRipas de ferrita com carbonetos entre as ripas~30–45 HRCTransformação isotérmica ~350–550 °C
Bainita inferiorFerrita acicular com carbonetos dentro das placas~45–55 HRC~Ms a 350 °C; excelente combinação dureza × tenacidade (austêmpera)
MartensitaSolução TCC supersaturada em C, adifusionalaté ~65 HRCResfriamento mais rápido que a velocidade crítica; cresce à velocidade do som no metal
Austenita retidaγ que não transformou (Mf abaixo da T ambiente)~150–300 HVAços alto C / alta liga; instável dimensionalmente — ver Módulo 4

1.5 Atlas visual: como cada microestrutura se organiza

O que muda de uma para outra não é "o material" — é como o carbono está arranjado e quão fino é o arranjo. Toda propriedade mecânica sai daqui. Toque em cada campo para ler o que ele explica.

A regra que une tudo

Dureza vem de obstáculos ao movimento de discordâncias. Cada microestrutura oferece um tipo: lamelas (perlita — quanto mais próximas, melhor), partículas finas (bainita, martensita revenida, aços com dureza secundária), rede distorcida + carbono intersticial (martensita), contornos de grão (Hall-Petch: σ ∝ 1/√d — por isso grão fino melhora resistência e tenacidade ao mesmo tempo, algo raríssimo em metalurgia). O tratamento térmico é, literalmente, engenharia de obstáculos.

Dureza da martensita = f(%C), não da liga

A dureza máxima da martensita depende quase só do carbono: 0,2 %C → ~45 HRC · 0,4 %C → ~57 HRC · 0,6 %C → ~64 HRC · >0,8 %C → satura em ~65–66 HRC. Elementos de liga (Cr, Mo, Ni, Mn) não aumentam essa dureza máxima — eles aumentam a temperabilidade, isto é, a capacidade de atingir martensita em seções maiores e com resfriamentos mais brandos. Confundir dureza com temperabilidade é o erro conceitual nº 1 da área.

1.6 Martensita em detalhe: Ms, Mf e a equação de Andrews

A transformação martensítica é atérmica: a fração transformada depende de quanto se desce abaixo de Ms, não do tempo. Ms cai com C e elementos de liga (Andrews, 1965, válida para C < 0,6 %):

Ms (°C) = 539 − 423·%C − 30,4·%Mn − 17,7·%Ni − 12,1·%Cr − 7,5·%Mo

Calculadora de Ms (Andrews) CÁLCULO DIDÁTICO

Regra prática (aproximação grosseira — Mf real depende de composição, estabilização e histórico térmico; para projeto, use dilatometria): Mf ≈ Ms − 215 °C. Se Mf cair abaixo da temperatura do meio de têmpera, sobra austenita retida — por isso aços com >0,5 %C + liga quase sempre retêm γ e podem exigir tratamento subzero ou revenidos múltiplos.

1.7 Tamanho de grão austenítico

O grão γ formado na austenitização é herdado por tudo que vem depois: martensita grosseira vem de grão γ grosseiro. Medido por ASTM E112 (número G: quanto maior, mais fino; G8 já é fino, G5 é grosseiro). Superaquecer ou manter tempo excessivo na austenitização cresce o grão e derruba tenacidade e resistência à fadiga. Al, Nb, V e Ti formam precipitados (AlN, NbC, VC) que ancoram contornos e seguram o crescimento — é por isso que aços "acalmados ao alumínio" e microligados mantêm grão fino mesmo em cementação a 930 °C.

Módulo 2 · O tempo entra em cena

Cinética: curvas TTT/CCT e temperabilidade

O diagrama Fe-C diz o que é estável; as curvas TTT/CCT dizem quanto tempo cada transformação leva. É aqui que se decide, na prática, se uma peça vira perlita, bainita ou martensita — e se o meio de têmpera escolhido dá conta da seção da peça.

2.1 TTT × CCT — não confunda

O ponto mais à esquerda da curva é o nariz (~500–600 °C nos aços C-Mn). Para obter 100 % martensita é preciso "passar pelo nariz" sem tocá-lo — essa é a velocidade crítica de têmpera. Elementos de liga empurram o nariz para a direita: segundos viram minutos, e um aço passa a temperar em óleo, ou até ao ar.

2.2 Simulador didático de transformações — curvas esquemáticas CÁLCULO DIDÁTICO

Escolha o aço (as curvas TTT se reposicionam com a liga — repare no nariz correndo para a direita), o tratamento e o grão. Arraste o tempo ou aperte Reproduzir: a vista ao microscópio mostra os grãos transformando naquele instante, e as frações respondem à curva daquele aço. As trajetórias são esquemáticas, da ordem do meio-raio de uma barra Ø25 mm; não há cálculo de transferência de calor, geometria ou agitação. Ferramenta para entender tendências — para definir ciclo real, use a curva CCT/Jominy da corrida e os dados do fornecedor.

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0200400600800 Temperatura (°C) 0,111010²10³10⁴10⁵ s Tempo (escala log) A1 · 727 °C F P B Ms Mf

Troque diâmetro e posição a qualquer momento — o instante do ciclo é mantido para comparação. Repare: a curva da superfície quase não muda com o Ø (quem manda ali é o meio de têmpera); é o meio-raio e sobretudo o núcleo que desaceleram com a seção. Por isso barras grossas endurecem na casca e perdem o núcleo — temperabilidade é sempre relativa à seção.

Vista ao microscópio850 °C
Corte transversal esquemático · ataque nital 2 % · escala ilustrativa
Fig. 2 — Curvas TTT reposicionadas por aço (posições de nariz, baía de bainita e Ms baseadas nos atlas isotérmicos típicos de cada liga; use o atlas do fornecedor para projeto). Linha cheia = início · tracejada = fim. Verde = ferrita, azul = perlita, marrom = bainita. Martensita: Koistinen–Marburger. Ferramenta didática — não usar para aprovar ou definir ciclo industrial.

2.3 Temperabilidade: Jominy, Grossmann e severidade H

Temperabilidade é a profundidade até a qual um aço endurece — normalmente definida como a distância onde se obtém 50 % martensita. Dois formalismos clássicos:

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Meio de têmperaSeveridade H (sem agitação)H (agitação forte)
Salmoura (NaCl ~10 %)2,0até 5
Água0,9–1,01,5–2,0
Polímero PAG (conc. controla)0,4–1,1
Óleo rápido (acelerado)0,4–0,50,8–1,1
Óleo convencional0,25–0,300,4–0,6
Sal fundido (martêmpera)~0,3–0,5
Ar calmo0,020,05 (forçado)
Boro: o elemento mais eficiente por ppm

10–30 ppm de B segregam nos contornos de grão γ e retardam a nucleação de ferrita, multiplicando a temperabilidade — desde que o B esteja protegido do N (por Ti). É a base dos aços 10B22, 15B30 usados em parafusos e implementos. Nenhum outro elemento entrega tanto com tão pouco.

2.4 Quem empurra a curva para a direita

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ElementoEfeito na TTT/CCTObservação
Mn, NiRetardam ferrita/perlita (γ-gênicos)Ni também baixa a T de transição dúctil-frágil
Cr, MoRetardam fortemente e separam as curvas de perlita e bainita ("baía")Origem dos diagramas com duas "barrigas" dos aços ligados
BRetarda ferrita em ppmSó em aços acalmados/protegidos com Ti
CoAcelera (desloca à esquerda)Exceção clássica de prova
CAumenta temperabilidade e baixa MsAcima de ~0,6 % aumenta risco de trinca e γ retida
Módulo 3 · Amolecer com propósito

Recozimentos, normalização e alívio de tensões

"Recozer" não é um tratamento — é uma família de tratamentos com objetivos distintos: amolecer para usinar, regenerar estrutura bruta de fusão/forjamento, esferoidizar para conformar, recristalizar após encruamento ou apenas aliviar tensões sem tocar na microestrutura. Especificar o recozimento errado custa horas de forno e propriedades.

3.1 Mapa da família

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TratamentoTemperaturaResfriamentoMicroestrutura / objetivo
Recozimento plenoAc3 + 30–50 °C (hipo)
Ac1 + 50 °C (hiper)
Dentro do forno (≤ ~30 °C/h até ~600 °C)Perlita grossa + ferrita; dureza mínima, máxima ductilidade. Lento e caro.
Recozimento isotérmicoAustenitiza e transforma a ~600–680 °CPatamar isotérmico, depois arMesmo resultado do pleno em fração do tempo; ideal p/ lotes de forjados (ex.: engrenagens antes da usinagem)
EsferoidizaçãoOscilando em torno de A1 (~690–750 °C), 4–24 hMuito lentoCementita globular em matriz ferrítica: a estrutura mais macia possível de um aço. Obrigatória p/ conformar ou usinar aços >0,6 %C (rolamento 52100 é fornecido assim)
Recozimento subcrítico550–700 °C (abaixo de A1)ArRecuperação/recristalização parcial sem re-austenitizar; barato
Recristalização~0,4·T_fusão; aços: 550–700 °CArNovos grãos equiaxiais após trabalho a frio; controla textura e grão em chapas
Alívio de tensões550–650 °C (aço C); 30–90 min/25 mmLento até ~300 °CSem transformação de fase. Relaxa tensões de soldagem/usinagem/têmpera por fluência local. Base do TTAT/PWHT de vasos (ASME VIII, NR-13)
Homogeneização1100–1200 °C, horasDissolve segregação dendrítica de lingotes/fundidos; grão cresce muito → exige normalização posterior
NormalizaçãoAc3 (ou Acm) + 40–60 °CAr calmoPerlita fina + grão refinado e homogêneo; ~10–20 % mais duro que recozido. Regenera forjados e fundidos, prepara estrutura uniforme p/ têmpera posterior
Normalizar ≠ recozer

A diferença é só a taxa de resfriamento (ar × forno), mas o resultado é conceitualmente distinto: a normalização resfria mais rápido, gera perlita mais fina (maior resistência) e, principalmente, refina e uniformiza o grão — por isso é o tratamento de "reset" após forjamento, laminação a quente ou soldagem pesada. Em peças espessas, o centro resfria mais devagar que a superfície: normalização de seções grandes produz propriedades heterogêneas, e é por isso que normas de vasos e forjados limitam propriedades por faixa de espessura.

3.2 Alívio de tensões na prática (o que você especifica em desenho)

Módulo 4 · O coração do endurecimento

Têmpera, revenido e os tratamentos isotérmicos

Como regra geral, têmpera sem revenido é uma peça em estado de tensão com alto risco de trincar (exceções existem — algumas condições de fornecimento e sequências específicas —, mas são controladas por procedimento). Este módulo cobre o ciclo completo: austenitização correta, física do resfriamento em líquidos, os quatro estágios do revenido, as duas fragilizações, austenita retida, subzero, martêmpera e austêmpera.

4.1 Austenitização: onde a têmpera é ganha ou perdida

4.2 Física do resfriamento em líquidos: os 3 estágios

  1. Camada de vapor (Leidenfrost): filme de vapor isola a peça — resfriamento lento. Vilão dos pontos moles: o filme colapsa antes em cantos e depois em cavidades.
  2. Ebulição nucleada: bolhas se formam e destacam na superfície — é o estágio de máxima extração de calor (pode passar de 1000 °C/s localmente).
  3. Convecção: abaixo do ponto de ebulição do meio — resfriamento lento de novo. É aqui que a martensita se forma (abaixo de Ms): convecção lenta = menos distorção.

Agitação, temperatura do banho e aditivos (sais na água, polímero PAG) existem para encurtar o estágio 1 e uniformizar o estágio 2. O óleo de têmpera ideal quebra o filme de vapor rápido, extrai forte no nariz da CCT e resfria devagar na faixa martensítica — exatamente o perfil que a água não tem (água é violenta justamente abaixo de 300 °C, onde mais dói).

4.3 Revenido: os 4 estágios

Martensita como temperada é supersaturada, tensionada e frágil. O revenido troca dureza por tenacidade de forma controlada:

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EstágioFaixaO que acontece
80–200 °CPrecipitação de carboneto ε (Fe₂,₄C); martensita perde tetragonalidade. Dureza cai pouco. Ferramentas de corte e cementados revenidos aqui (150–200 °C)
200–300 °CAustenita retida se decompõe em bainita/ferrita + cementita (nos aços C; em alta liga só acima de 500 °C)
250–400 °Cε → cementita Fe₃C; martensita vira "martensita revenida" (ferrita acicular + carbonetos). Queda franca de dureza
500–650 °C (aços ligados)Precipitação de carbonetos de liga finos (Mo₂C, V₄C₃, W₂C, Cr₇C₃) → endurecimento secundário. Base dos aços H13, M2, aços rápidos

4.4 As duas fragilizações que você precisa evitar

Fragilização da martensita revenida (TME)

250–400 °C, irreversível. Filmes de cementita nos contornos das ripas + segregação de P/S. Regra de ouro: não revenir nessa faixa — ou abaixo de 250 °C, ou acima de 425 °C. Nota terminológica: "fragilidade azul" é expressão usada de forma variável na literatura (classicamente designa o envelhecimento dinâmico ~200–350 °C em aços ferríticos) — não trate os termos como sinônimos.

Fragilização ao revenido (reversível / Krupp)

450–600 °C, reversível. Segregação de P, Sn, Sb, As nos contornos de grão γ prévios durante permanência ou resfriamento lento na faixa. Afeta Cr-Ni e Cr-Mn (4340, 42CrMo4 é parcialmente protegido). Antídotos: Mo 0,15–0,5 %, aços limpos, e resfriar em água/óleo após revenido acima de 600 °C para atravessar a faixa rápido. Diagnóstico: fratura intergranular + queda de energia Charpy; recuperável re-revenindo acima de 600 °C + resfriamento rápido.

4.5 Curva de revenido e o parâmetro de Hollomon-Jaffe

Tempo e temperatura de revenido são intercambiáveis via P = T·(20 + log t) (T em Kelvin, t em horas): 2 h a 600 °C ≈ 4,5 h a 585 °C. Use P para transpor uma curva de catálogo (frequentemente levantada com tempo fixo — confira no catálogo) para o seu ciclo real. Aços ao C têm curva monotônica decrescente; aços com Mo/V/W/Cr mostram o pico de dureza secundária em 500–560 °C — o H13 sobe de ~52 para ~54 HRC antes de cair.

Regras operacionais de revenido

① Revenir imediatamente após a têmpera (peça a 50–80 °C; deixar peça temperada sem revenir de um dia para o outro convida trinca espontânea) — boa prática geral, com exceções apenas por procedimento controlado. ② Aços-ferramenta e cementados de alta liga: duplo ou triplo revenido — o 1º reveste a martensita e desestabiliza a γ retida, que transforma em martensita nova no resfriamento; o 2º revine essa martensita nova. ③ Dureza final é definida pelo revenido, não pela têmpera: temperar visa dureza máxima; revenir ajusta ao especificado.

4.6 Austenita retida e tratamento subzero

4.7 Martêmpera e austêmpera

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Martêmpera (têmpera interrompida)Austêmpera
CicloResfria em sal fundido/óleo quente logo acima de Ms (180–250 °C), equaliza a temperatura na seção, depois resfria ao ar através de MsResfria até 260–400 °C e mantém até transformação completa em bainita (minutos a horas); sem revenido posterior
MicroestruturaMartensita (revenir depois normalmente)Bainita inferior ou superior, conforme aço e T do patamar (T baixa, ~260–330 °C, favorece a inferior)
VantagemToda a seção cruza Ms junta → distorção e risco de trinca mínimosTenacidade e ductilidade superiores à martensita revenida de mesma dureza (40–50 HRC); quase sem distorção
LimiteExige temperabilidade suficiente (o sal é meio brando)Seções finas ou aços de alta temperabilidade; tempo de patamar longo
AplicaçõesEngrenagens, eixos, matrizes de precisãoMolas, clipes, lâminas, correntes — e ADI (ferro nodular austemperado: 850–1050 MPa com 10 % alongamento)

4.8 Cores de revenido (guia visual de oficina)

Óxidos superficiais de espessura crescente produzem cores de interferência — termômetro visual clássico (aço C, ar, tempos curtos):

Palha claro
~220 °C
Bronze
~240 °C
Marrom-púrpura
~260 °C
Púrpura
~280 °C
Azul escuro
~300 °C
Azul claro
~330 °C
Cinza
~400 °C

Serve como indicativo — nunca como controle de processo. Em Cr alto, as cores deslocam para cima.

Módulo 5 · Endurecer só onde precisa — mudando a química

Tratamentos termoquímicos

Termoquímicos alteram a composição química da superfície por difusão (C, N, B…), criando o par ideal: casca dura e resistente ao desgaste + núcleo tenaz — e, de quebra, tensões residuais compressivas na superfície, que multiplicam a vida em fadiga. A escolha entre eles é uma decisão de temperatura (distorção!), profundidade, dureza e custo.

5.1 Cementação (carbonetação)

Estimativa didática de profundidade de difusão na cementação (Harris) CÁLCULO DIDÁTICO

d ≈ f·√t — fatores clássicos p/ aço-carbono/baixa liga em potencial C típico. Não equivale automaticamente a CHD 550 HV1: o critério de camada depende do aço, do potencial de C, do ciclo boost/diffuse, da têmpera e da dureza do núcleo.

5.2 Nitretação

5.3 Carbonitretação × Nitrocarbonetação — nomes parecidos, mundos diferentes

Carbonitretação (austenítica)

820–900 °C, atmosfera de cementação + NH₃ (C e N difundem na austenita), seguida de têmpera. Camadas finas (0,1–0,75 mm) com temperabilidade aumentada pelo N → tempera em óleo até aço 1010/1020 barato. Perfeita para peças pequenas estampadas, pinos, engrenagens leves produzidas em massa.

Nitrocarbonetação ferrítica (FNC / Tenifer / QPQ)

560–580 °C, curtíssima (1–4 h), gás ou banho de sal: forma rapidamente camada ε compacta (10–25 µm) + difusão rasa. Sem têmpera. Resistência a desgaste adesivo, engripamento e corrosão. Variante QPQ (quench-polish-quench com pós-oxidação): superfície preta, resistência à corrosão comparável a cromo duro — hastes hidráulicas, virabrequins, armas, válvulas industriais.

5.4 Boretação e outros

5.5 Tabela comparativa — a decisão de engenharia

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ProcessoT (°C)Dureza sup.Profundidade típicaDistorçãoTêmpera depois?Use quando…
Cementação880–95058–62 HRC0,3–3 mmAltaSimCargas de contato altas (engrenagens, rolamentos) — camada profunda de suporte
Carbonitretação820–90058–62 HRC0,1–0,75 mmMédiaSimPeças pequenas, aço barato, produção em massa
Nitretação gás/plasma500–580600–1200 HV0,1–0,8 mmMínimaNãoPrecisão dimensional, fadiga, matrizes a quente, peças já acabadas
FNC / QPQ560–580~500–900 HV (camada ε)10–25 µm + difusãoMínimaNãoDesgaste adesivo + corrosão, ciclos curtos e baratos
Boretação850–10001400–2000 HV20–300 µmAltaOpcional (núcleo)Abrasão severa que nitretação não segura
Perfil de camada: o conceito de dureza de suporte

Camada dura sobre núcleo mole demais é como asfalto fino sobre solo fofo: colapsa por deformação subsuperficial (efeito casca de ovo). Em contato hertziano, a tensão de cisalhamento máxima ocorre abaixo da superfície (~0,3–0,5·semilargura de contato) — a camada precisa ser mais profunda que esse pico, e o núcleo precisa de dureza mínima (engrenagens cementadas: núcleo 30–43 HRC). É por isso que CHD de engrenagem escala com o módulo do dente (regra usual: CHD ≈ 0,15–0,2·mₙ).

Módulo 6 · Endurecer só onde precisa — sem mudar a química

Endurecimento superficial por aquecimento localizado

Indução, chama, laser e feixe de elétrons austenitizam apenas a casca da peça e temperam em seguida — o próprio núcleo frio pode fazer a têmpera (autotêmpera). Exigem aço com carbono suficiente para endurecer (0,35–0,55 %C): 1045, 4140, 4340, ferros fundidos perlíticos.

6.1 Têmpera por indução

6.2 Chama, laser e feixe de elétrons

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ProcessoProfundidadeCaracterísticas
Chama (oxiacetileno + ducha)1–6 mmBarato, flexível, peças enormes (engrenagens de moenda, rodas), mas controle inferior — depende do operador/dispositivo
Laser0,3–1,5 mmFaixa estreita e precisa, autotêmpera por condução (sem ducha), distorção quase nula, integra em célula robotizada; camadas finas — guias, cames, gumes
Feixe de elétrons0,1–1 mmComo laser, mas em vácuo; nichos de altíssima precisão
Por que superfície dura melhora fadiga (e não só desgaste)

Tanto os termoquímicos quanto indução/laser deixam a casca em compressão residual (a expansão da martensita é contida pelo núcleo). Trincas de fadiga nucleiam na superfície sob tração — compressão residual funciona como "pré-carga negativa": o limite de fadiga de um eixo pode subir substancialmente com têmpera por indução bem posicionada (tendência qualitativa — o ganho real depende do aço, da profundidade do padrão e do ensaio). Mesma lógica do shot peening, porém mais profunda.

Módulo 7 · A química por trás da ficha técnica

Aços, elementos de liga e casos reais

Ler uma composição química e prever o comportamento no tratamento térmico é a marca do especialista. Cada elemento tem dois ou três "empregos" — e efeitos colaterais.

7.1 O papel de cada elemento

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Elem.Efeitos principais no TTEfeitos colaterais / notas
CDefine dureza máxima da martensita; ↑ temperabilidade; ↓ Ms>0,6 %: risco de trinca de têmpera e γ retida; soldabilidade despenca (CE)
Mn↑↑ temperabilidade (barato); ↓ Ms; liga o S como MnS>1,8 % favorece γ retida e segregação em bandas
Cr↑ temperabilidade; forma carbonetos (Cr₇C₃, Cr₂₃C₆) → desgaste; nitreta bem≥ ~11 % em solução → inox; susceptível à fragilização ao revenido sem Mo
Mo↑↑ temperabilidade; dureza secundária; resistência à fluência; anti-fragilização ao revenidoCaro; 0,15–0,5 % já resolve a fragilização
Ni↑ temperabilidade; tenacidade a baixa T (baixa a TDF); não forma carbonetosEstabiliza γ (↑ retida); caro
VRefina grão (V(C,N) ancora contornos); carboneto VC duríssimo; dureza secundáriaExige austenitização mais alta p/ dissolver
WCarbonetos estáveis, dureza a quente (aços rápidos, a quente)Denso e caro; parcialmente substituído por Mo (M2 vs T1)
SiDesoxidante; ↑ resistência ao amolecimento no revenido; molas (9260)>2 % dificulta cementação; favorece descarbonetação
AlAcalma o aço; AlN refina grão; elemento-chave de nitretação (Nitralloy)Inclusões de alumina (usinabilidade/fadiga de contato)
B↑↑↑ temperabilidade com 10–30 ppmPrecisa Ti p/ proteger do N; efeito some acima de ~0,4 %C
Nb, TiMicroligantes: refino de grão, endurecimento por precipitação (ARBL)TiC/TiN abrasivos p/ ferramenta

7.2 Fichas de tratamento de aços que você encontra todo dia

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AçoTêmperaRevenido / resultadoNotas de especialista
1045820–850 °C, água/polímero550–650 °C → 20–28 HRC (beneficiado)Baixa temperabilidade: só endureça por indução ou em seções finas; água = risco de trinca em cantos
4140 (similar: 42CrMo4)840–860 °C, óleo540–650 °C → 28–36 HRCO beneficiado universal. Evite estacionar em 450–550 °C (fragilização); nitreta muito bem (~600 HV)
4340 (similar: 34CrNiMo6)830–850 °C, óleo550–650 °C → 30–40 HRCAlta temperabilidade (seções grandes); tenaz; clássico de eixos pesados e componentes de laminação
8620 (≈ EN 20NiCrMo2-2 / 1.6523)Cementa 900–930 °C; tempera 820–840 °C óleo160–200 °C → 58–62 HRC sup., núcleo 30–43Engrenagem padrão; controle de γ retida na camada; duplo revenido em módulos grandes
52100 (similar: 100Cr6)830–860 °C, óleo (de esferoidizado)150–180 °C → 60–64 HRCRolamentos; austenitização intercrítica (carbonetos residuais); subzero p/ estabilidade dimensional
H13 / 1.23441010–1030 °C, gás/óleo (vácuo)2–3× revenido 550–620 °C → 44–52 HRCDureza secundária; revenir sempre acima do pico p/ estabilidade térmica em serviço; nitretável
1.2714 / 56NiCrMoV7840–870 °C, óleo/ar2× revenido 450–600 °C → 37–44 HRC (~340–420 HB)Matrizes de forjamento a quente: prioridade é tenacidade + resistência ao revenimento em serviço; nitretação/soldas de recuperação com pré-aquecimento 350–450 °C e revenido pós-solda
M2 / HS6-5-21180–1220 °C, banho/vácuo3× 540–560 °C → 63–65 HRCAço rápido: dureza secundária plena exige triplo revenido; γ retida >20 % após têmpera

7.3 Ferros fundidos: o caso ADI

Ferro nodular austemperado (ADI, ASTM A897/A897M — classes e propriedades variam por edição; consulte a vigente): austenitiza 850–950 °C, austêmpera 250–400 °C → ausferrita (ferrita acicular + γ estabilizada em C). Ordem de grandeza do grau básico: ~850 MPa / 10 % along. — resistência de aço forjado com 10 % menos densidade e amortecimento de vibração superior. Usado em engrenagens, suspensões, mancais e componentes de moagem. Atenção: a γ estabilizada transforma sob usinagem pesada → usinar antes de austemperar.

Módulo 8 · Onde a teoria encontra a oficina (e a auditoria)

Prática industrial: defeitos, controle e ferramentas rápidas

A maioria dos problemas de tratamento térmico não vem da metalurgia — vem de projeto que ignora a têmpera, carga mal montada, pirometria descalibrada e especificação ambígua. Este módulo é o seu checklist.

8.1 Distorção e trincas de têmpera

8.2 Defeitos superficiais de forno

↔ arraste a tabela
DefeitoCausaPrevenção / detecção
DescarbonetaçãoAtmosfera oxidante (ar, umidade) durante austenitizaçãoAtmosfera com potencial C ≈ %C do aço, vácuo, ou sobremetal p/ remoção; detectar por microdureza em corte ou lixamento escalonado + dureza
Oxidação intergranular (IGO)Cementação gasosa: O da atmosfera oxida Si/Mn/Cr nos contornos, 10–25 µmLPC (vácuo) elimina; ou prever remoção por retífica; crítica em fadiga de engrenagens
Pontos molesFilme de vapor persistente, carepa, contato entre peças na cargaAgitação, salmoura/aditivos, montagem de carga espaçada
Excesso de camada branca / camada bifásicaPotencial de nitretação alto demaisControle K_N; plasma p/ suprimir; especificar espessura máx. em desenho (ex.: ≤ 15 µm, monofásica)

8.3 Pirometria e qualidade (o que a auditoria pede)

8.4 Conversor de dureza (aprox. ASTM E140, aços) CÁLCULO DIDÁTICO

Interpolação sobre a tabela E140 para aços não-austeníticos. Conversões são sempre aproximadas — para laudo, meça na escala especificada.

8.5 Fluxo de decisão — qual tratamento especificar?

  1. Precisa endurecer o volume todo? → têmpera + revenido (beneficiamento). Verifique temperabilidade × seção (Jominy/CCT) antes de escolher o aço, não depois.
  2. Só a superfície, camada profunda (>0,5 mm) e contato hertziano alto? → cementação (aço baixo C) ou indução (aço médio C, geometria simples e volume de produção).
  3. Só a superfície, peça acabada, distorção inaceitável? → nitretação (aço com Cr/Mo/V/Al, já beneficiado).
  4. Desgaste adesivo + corrosão, custo baixo, camada fina serve? → FNC/QPQ.
  5. Abrasão extrema? → boretação (ou revestimento: PVD, aspersão, solda dura — fora do escopo térmico).
  6. Só remover tensões (soldou, usinou pesado)? → alívio de tensões; respeite o teto do último revenido.
  7. Amolecer para usinar/conformar? → recozimento isotérmico (produtividade) ou esferoidização (alto C).
Atlas de Tratamentos Térmicos & Termoquímicos · V18 · Material didático: valores são típicos e os simuladores são esquemáticos (selo CÁLCULO DIDÁTICO). Para definição de ciclo, aprovação de processo ou substituição de material, use a norma vigente com edição (DIN EN 10083/10085, ASTM A255/E140/A897M, ISO 642/2639/18203, AMS 2750), o certificado da corrida, curvas CCT/Jominy do fornecedor e validação experimental.